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29 de março de 2013

On Writing + Quatro Estações









On Writing – A Memoir Of The Craft
Autor: Stephen King
384 págs.
Hodder & Stoughton, 2000









Quatro Estações
[Different Seasons]
Autor: Stephen King
538 págs.
Livraria Francisco Alves, 1991


"Olhei mais uma vez a sanguessuga morta em cima de um dos arbustos pisoteados sobre os quais havíamos pulado, gritando e chorando. Tinha um aspecto menos intumescido... mas ainda sinistro.
Quatorze anos depois editei meu primeiro romance e fiz minha primeira viagem a Nova Iorque.
[...] Keith, meu editor, parecia encantado em me ciceronear. A última coisa de turista que fizemos foi um passeio de barco até Staten Island, e encostado no parapeito por acaso olhei para baixo e vi uns vinte preservativos usados boiando suavemente avolumados. Foi um momento de recordações — talvez na verdade tenha sido uma viagem através do tempo. De qualquer maneira, por um segundo voltei literalmente ao passado, parando na metade daquela margem e olhando para trás para a sanguessuga: morta, menos inchada... mas ainda sinistra.
Keith deve ter visto algo em meu rosto, pois disse:
 — Nada bonito, não é?
Apenas balancei a cabeça, querendo lhe dizer que não se desculpasse, querendo lhe dizer que você não precisa ir a Nova Iorque e passear de barco para ver camisinhas usadas, querendo dizer: O único motivo pelo qual uma pessoa escreve é para entender o passado e preparar-se para futuras perdas; por isso todos os verbos dos romances são no passado". 
KING, Stephen. O Corpo. In Quatro Estações, p.411.

* * *


Quase sempre, é a praia.

Não havia (e continua não havendo, até onde sei) rodoviária por lá, portanto era preciso desembarcar numa cidade próxima e pegar um ônibus de linha. Sabendo que enfrentaria uma longa espera no ponto, passei antes num boteco para comprar o primeiro maço da minha vida (um Marlboro vermelho), mais uma caixinha de Fiat Lux — por algum motivo, achei que acender o cigarro com fósforo tinha um ar meio rústico que combinava com a minha mochila impermeável para trilhas. Disfarcei o acesso de tosse provocado pela primeira tragada e senti-me sombrio, amargo, adulto.

Àquela altura, plena tarde no fim de janeiro, ônibus e estrada estavam vazios, e o motorista fazia as curvas numa velocidade quase alarmante. Eu ia com a janela aberta, sentindo a maresia em lufadas quentes, vendo os relances da enseada às vezes se transformarem em mar aberto. Saltei a poucos metros da ponte de madeira, no caminho para a bica d'água, quase na esquina da casa de tijolos aparentes — à sua frente, o já familiar chão de barro parecia eternamente molhado, mesmo nos dias de sol escaldante. Descalcei tênis e meias e encolhi-me com o arrepio ao mesmo tempo repulsivo e reconfortante da massa de terra fria e úmida infiltrando-se entre os dedos dos pés.

Abri o portão de madeira, e talvez naquele momento o aparelho de som lá na sala estivesse mesmo tocando Belong, ou talvez seja só como eu me lembro da cena. O que importa é que tão logo vi a rede na varanda e senti a aspereza do piso de cimento da garagem em contraste com a maciez do barro, gritei com mais animação do que me seria habitual: "Ô de casa!".

Licença poética ou não, a justificativa de Stephen King para o tempo verbal da ficção está bem próxima da verdade, pelo menos para mim. A escrita me levou inúmeras vezes de volta àquele finzinho de férias na adolescência, em que a casa da praia e o Out Of Time, do R.E.M., me ajudaram a superar a primeira desilusão amorosa. Não que contar histórias seja necessa- riamente uma forma de terapia de regressão, mas boa parte da literatura é feita de protagonistas em momentos decisivos de suas vidas, e imagino que cada autor utilize as imagens que lhe são mais familiares na hora de criar personagens e situações. Sempre tive curiosidade de saber quais seriam as de King. Ele revela algumas em On Writing — como a vez em que, aos cinco ou seis anos de idade, perguntou se a mãe já tinha visto alguém morrer, e ela, além de não fugir do assunto, ainda encheu a resposta de pormenores macabros. Ou quando sua família se mudou para uma pequena cidade em Connecticut, e ele e o irmão descobriram, perto da nova casa, uma ampla área de matagal atravessada por uma velha estrada de ferro, vizinha a um ferro-velho e que mais tarde daria origem aos Barrens, quartel-general do Clube dos Perdedores em A Coisa [894 págs.; Objetiva, 2001].

Misto de livro de memórias e manual para o aspirante a escritor, On Writing não se preocupa tanto com detalhamento e cronologia em sua seção autobiográfica, apropriadamente intitulada C.V. (de "curriculum vitae"). Ainda que inclua também um ou outro episódio aleatório, como o hilário caso da babá e a traumática relação com os médicos, King se concentra naquilo que teve impacto em sua formação, como a ausência de um aparelho televisor em seu lar durante seus dez primeiros anos de vida, o que o levou a devorar quadrinhos, filmes B de ficção científica, terror e suspense — em especial, as versões de contos de Edgar Allan Poe dirigidas pelo papa do cinema trash, Roger Corman — e revistas com histórias dos mesmos gêneros. Aliás, foi para esse tipo de publicação que ele começou a enviar algumas de suas primeiras incursões literárias. Não há como não sorrir no trecho em que conta sobre a primeira de muitas cartas de rejeição que recebeu das editoras: ao som de I'm Ready, de Fats Domino, cheio daquela sadia petulância juvenil, o então garoto afixou-a como um troféu no quadro defronte à sua escrivaninha.

Em meio às recordações, King antecipa algumas dicas para os futuros romancistas e contistas, como a resposta à inevitável pergunta sobre inspiração. "Boas ideias para histórias parecem vir literalmente do nada, navegando pelo céu vazio até você: duas delas que antes não tinham relação entre si de repente se juntam e formam algo de novo sob o sol. Seu trabalho não é encontrar essas ideias, mas reconhecê-las quando aparecem", aponta, pinçando um exemplo de sua carreira. A experiência de trabalhar como faxineiro em uma high school durante um verão e conhecer o vestiário feminino, com suas latas de metal para descarte de absorventes e cortinas de plástico entre os chuveiros, voltou à sua cabeça anos mais tarde, quando viu um artigo sobre telecinese na revista Life. As duas ideias se juntaram, tornando-se o embrião de Carrie, A Estranha [140 págs.; Objetiva, 2007], romance protagonizado por uma adolescente que descobre ter poderes paranormais na mesma época em que tem sua primeira menstruação.

Em duas das seções seguintes do livro, Toolbox e On Writing, estão elencados os conselhos mais práticos. O escritor descreve a sua "caixa de ferramentas" (com vocabulário e gramática no topo e os elementos de estilo logo abaixo), aconselha a evitar a voz passiva ("é a voz dos garotinhos usando bigodes pintados com graxa de sapato") e declara que "o advérbio não é seu amigo". Também discorre sobre organização e construção de parágrafos e a importância da leitura e da disciplina. Tudo isso sem pedantismo algum, mas com muito bom humor e exemplos funcionais — por exemplo, as regras para edição (ou a arte de eliminar da história tudo o que não for história) são ilustradas com as alterações feitas na versão original do conto 1408, incluído na compilação Tudo É Eventual [306 págs.; Objetiva, 2005].

Fica evidente que a reflexão sobre o próprio ofício tem ocupado a mente de King desde antes de On Writing. Basta ver a extensa galeria de personagens escritores em sua bibliografia — há desde o bem-sucedido Paul Sheldon, de Angústia [346 págs.; Livraria Francisco Alves, 1991] até o alcoólatra Jack Torrance, de O Iluminado [264 págs.; Objetiva, 1999], passando pelo hesitante Bill Denbrough, de A Coisa. Poucos títulos, porém, reverenciam tanto o ato de contar histórias quanto Quatro Estações. O livro é formado por quatro novelas, cada uma relacionada a uma estação do ano, e três das quais foram transportadas para o cinema: Rita Hayworth E A Redenção De Shawshank virou Um Sonho De Liberdade [The Shawshank Redemption, 1994; dir.: Frank Darabont], Aluno Inteligente virou O Aprendiz [Apt Pupil, 1998; dir.: Bryan Singer] e O Corpo virou Conta Comigo [Stand By Me, 1986; dir.: Rob Reiner].

Esse último é provavelmente o que discute mais abertamente o tema. Afinal, o narrador, Gordon Lachance, é um escritor que relembra um episódio de sua juventude, quando ele e mais três amigos foram procurar o cadáver de um garoto desaparecido. O Corpo aborda, essencialmente, a dificuldade de se traduzir uma experiência em palavras (como no trecho do cervo), e retrata o momento único em que alguém se descobre autor: "Richie levantou as folhas... e devo admitir que não tentei muito tomá-las. Queria que as lesse e ao mesmo tempo não queria — uma mistura estranha de orgulho e vergonha, que sinto até hoje quando alguém me pede para ler o que escrevo. O ato de escrever em si é secreto, como a masturbação [...]. Quando acabou [de ler], Richie olhou para mim de uma maneira nova e diferente que fez com que eu me sentisse muito singular, como se tivesse sido forçado a reavaliar toda a minha personalidade".

A caminho do local onde está o corpo, diante da fogueira, Lachance narra uma de suas histórias, a da vingança de Lard Ass (Rabo Grande na tradução do livro, Bola de Sebo na dublagem em português do filme). Quando termina, Vern e Teddy, seus dois amigos menos "brilhantes", perguntam o que acontece depois. Difícil não associar essa passagem à adaptação cinematográfica de Rita Hayworth E A Redenção De Shawshank. Embora a narração em off de Morgan Freeman reproduza fielmente as últimas linhas da novela, o acréscimo de uma sequência conclusiva (a chegada de Red a Zihuatanejo e seu encontro com Andy) no filme simplesmente arruína o emocionante final aberto original. Talvez os autores de Um Sonho De Liberdade tenham suposto que o público é tão estúpido quando Vern e Teddy (e talvez tenham acertado). Igualmente infeliz é a tentativa do longa de amenizar o crime de Red com o claro intuito de torná-lo mais simpático (nas telonas, o prisioneiro veterano comete um latrocínio no calor do momento; nas páginas do livro, premedita friamente a morte da esposa para receber o dinheiro do seguro) — ao diminuir a culpa do personagem, o roteiro também enfraquece sua transformação.

Rita Hayworth... representa, de certo modo, o polo oposto ao de Aluno Inteligente. Ambas tratam, em última instância, do poder de uma história. Só que, enquanto a saga de Andy Dufresne inspira esperança, a do velho Kurt Dussander corrompe. O garoto Todd Bowen podia já ter algo sinistro dentro de si, mas conforme ele obriga o ex-oficial nazista a contar todas as barbaridades que conduziu nos campos de extermínio, o pior da natureza de ambos vem à tona — aqui, King parece lembrar aos críticos do gênero terror que a História, com maiúscula, é muito mais violenta, apavorante e influente do que qualquer fantasia sobre palhaços assassinos ou meninas telecinéticas.

Storytelling é também o foco da última novela, O Método Respiratório. O advogado David Adley é convidado por um colega a se juntar a um misterioso clube para cavalheiros em Manhathan, em que não há carteirinha, taxa de admissão ou mensalidade. Apesar de dispor de bar inesgotável, ampla biblioteca e outros passatempos, a principal atividade ali parece ser ficar em torno da lareira para ouvir as histórias contadas pelos outros. O sr. McCarron, um dos sócios mais idosos, se voluntaria para cuidar do entretenimento na véspera de Natal, a noite mais aguardada por todos, tradicionalmente reservada a uma história sobrenatural. Ele, então, conta algo que ocorreu quando trabalhava como médico, e acompanhou a gravidez de uma jovem solteira, a quem ensinou o tal método respiratório do título. Ao término da narrativa de McCarron, ainda abalado pelo que acabou de ouvir, David decide fazer algumas perguntas a Stevens, que é aparentemente o único funcionário do local, para tentar desvendar o segredo do clube.

Finda a leitura, dá para imaginar por que O Método Respiratório é a única "estação" que não virou filme. A história do médico tem um final chocante, e mostra o quanto King domina a técnica de criar suspense, mas ela só funciona em conjunto com a história do clube, uma vez que se baseia na expectativa do leitor pela chegada do elemento sobrenatural. A do clube, por sua vez, não possui uma trama propriamente dita, apenas o mistério, e sua resolução certamente frustraria os Verns e Teddys da vida. O clima da novela é semelhante ao de um episódio de Além Da Imaginação ou de um conto de Amazing Stories, duas séries que certamente estiveram entre as favoritas do autor.

Inscrito no arco de pedra sobre a lareira e enunciado pelos membros quando erguem um brinde, o lema do clube é também a epígrafe de Quatro Estações: "O importante é a história, não o narrador". Aplica-se, é claro, às quatro novelas, e parece também complementar o que King diz em On Writing, quando observa que um escritor pode ser formado, mas não feito.

Alguns anos atrás, voltei à praia. Não quis ir até a casa. Acho que no fundo também não importa tanto assim de onde as histórias vêm.

14 de fevereiro de 2013

Nove Vidas

Em busca do sagrado na Índia moderna
[Nine Lives — In search of the sacred in modern India]
Autor: William Dalrymple
360 págs.
Companhia das Letras, 2012

Era, dependendo do ponto de vista, uma mercearia que servia bebidas ou um bar que vendia mantimentos. Localizava-se em um barrio afastado de San Juan Viejo e de Santurce — respectivamente, o centro histórico onde se concentram as principais atrações turísticas, e o distrito mais rico e populoso da capital porto-riquenha. Ali, dentre os fregueses que preferiam chamar o estabelecimento de bar, ninguém bebericava uma pinã colada ou algum outro coquetel tropical. Na verdade, qualquer drink colorido acabaria destoando das paredes desbotadas e mesas enferrujadas que caracterizavam aquele casebre meio decrépito.

Não que nós combinássemos muito com o ambiente. Larry, o cara de Washington, até parecia à vontade com sua Medalla Light, a cerveja local, bem semelhante às American lagers com as quais devia estar acostumado. Ainda assim, ele era o estereótipo do gringo: branquelo, com uma coloração rosada devido ao sol do Caribe, camisa polo, bermuda cargo e tênis para trekking, máquina fotográfica a tiracolo. Javier, o único que podia realmente dizer que se sentia em casa, me vigiava com uma expressão divertida, enquanto eu (que com meus olhos puxados já havia atraído as atenções quando adentramos o recinto) investigava o aroma da dose de pitorro, um rum caseiro, que repousava num copo à minha frente. Tomei coragem e entornei o líquido amarelado duma só vez. "Muito forte?", perguntou Larry, me encarando, ressabiado, por sobre os óculos. "Não", disfarcei, "só um pouquinho mais do que eu esperava". Javier me deu um tapa vigoroso nas costas: "Qual é, nosso amigo brasileiro tá acostumado com cachaça! Pra ele, isso é brincadeira". "Ka-sha-sssa", repetiu o gringo, em sua melhor imitação de português. Javier e eu rimos, Larry nos olhando com cara de interrogação.

Conversávamos sobre o moonshine, o uísque fabricado ilegalmente nos EUA, quando um rapaz se aproximou da mesa — moreno, magro, trajando chinelos, jeans e regata surrados. Achei que fosse pedir alguma coisa para os dois turistas, mas foi a "Javí" que ele se dirigiu, como se o conhecesse de longa data. Nascido e criado em San Juan, Javier havia se mudado ainda jovem para Miami, depois Nova York, trabalhando em diversos subempregos até finalmente conseguir se estabelecer como jornalista.

Após as saudações costumeiras, Javier explicou ao seu amigo, em espanhol, que tinha vindo apenas para cobrir o festival de jazz, e que, para aproveitar o dia de folga, estava mostrando o lado menos conhecido da cidade para seus dois colegas. O rapaz, então, nos desejou uma boa estadia e se despediu, em inglês, e logo em seguida foi cumprimentar os outros fregueses, um por um. "Sujeito popular", observou Larry. "A maioria das pessoas por aqui o conhece desde pequeno. A mãe dele é obá, uma espécie de sacerdotisa da religião local", explicou Javier. "Santería?", perguntou o gringo, sem conseguir esconder certa tensão na voz. "Yeah, yeah... E eu pedi pra ele dar uma boa olhada nas caras feias de vocês pra poder fazer uns bonequinhos vudus", zombou nosso cicerone. Rimos, embora Larry ainda parecesse um pouco desconfortável, provavelmente por ignorar que os santeros não são feiticeiros.

Brindamos ao privilégio de ter um nativo entre nós. Sem sua iniciativa de nos apresentar à periferia de San Juan — mesmo que superficialmente, devido ao tempo escasso —, teríamos conhecido apenas o roteiro oficial preparado pela organização do festival. Discutimos as vantagens de desbravar por si próprio uma cidade desconhecida, em vez de seguir as indicações subjetivas de um guia turístico. Constatei, com desânimo, que o mesmo raciocínio poderia ser aplicado ao relato de viagem que eu pretendia escrever — por que alguém iria querer ler uma descrição quando podia muito bem ir ver com os próprios olhos? "Indicações são sempre úteis, mesmo que seja pra ajudar a escolher que lugares não visitar. E no seu caso, é diferente — você vai escrever sobre a sua experiência, não sobre a viagem em si, certo? Além disso, você tem um protagonista totalmente carismático...", disse Javier, batendo no peito, com deboche. "Ei, a ideia deste passeio foi minha. Eu é que sou o protagonista", retrucou Larry, meio brincando. "Esquece, você é só o alívio cômico", sacaneou nosso cicerone, para então completar: "Apenas escreva, cara. No fundo, é tudo literatura. Quero dizer, a Odisseia, de Homero, é um extenso relato de viagem, não é?".

Quase 10 anos depois da visita à capital de Porto Rico, a única coisa que acabei escrevendo a respeito foi um conto meio "bukowskiano" construído para parecer um capítulo extraído de um guia de viagens — prova de que aquela observação acerca da Odisseia e das fronteiras imprecisas entre os gêneros literários realmente ficou na minha cabeça. E ela voltou, durante a leitura de Nove Vidas.

O escocês William Dalrymple é uma espécie de prodígio. Aos 22 dois anos, durante as férias da faculdade de História, ele resolveu refazer a jornada empreendida por Marco Polo no final do século XIII, da Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém, até a corte de Kublai Khan, na Mongólia. Dalrymple seguiu os supostos passos do mercador veneziano e registrou tudo, comparando a opulência da antiga rota comercial com a moderna situação dos países que cruzou. O resultado foi In Xanadu: A Quest, publicado dois anos depois [1989] e imediatamente alçado à condição de best-seller. Fascinado pelo Oriente, especialmente pela Índia, para onde acabou se mudando, ele retratou o país em muitas de suas obras seguintes — The City Of Djinns [1994], sobre a capital, Delhi, e a trinca de cunho histórico, formada por The Age Of Kali [1998], White Mughals [2002] e The Last Mughal [2006].

A diversidade religiosa, tão representativa da cultura indiana, é abordada em Nove Vidas, seu primeiro livro a sair no Brasil, e que marca o retorno ao formato de relato de viagem — só que com uma diferença significativa. "Duas décadas atrás, quando meu primeiro livro, In Xanadu, foi publicado, no auge dos anos 1980, os livros de viagem tendiam a pôr em evidência o narrador: suas aventuras eram o tema; as pessoas que ele encontrava eram às vezes reduzidas a objetos de fundo. Com Nove Vidas procurei fazer uma inversão e manter o narrador firmemente nas sombras, trazendo assim as vidas das pessoas que encontrei para o primeiro plano, posicionando suas histórias no centro do palco", explica, na introdução.

E as vidas são, para dizer o mínimo, fascinantes. Dalrymple começa com um "golpe baixo" em A narrativa da monja, comovente capítulo dedicado a Prasannamati Mataji. Ainda criança, ela decidiu abraçar o jainismo, religião que prega o total desapego do mundo físico. Assim, seus seguidores renunciam não somente a todas as posses, passando a praticar o asceticismo e a mendicância, como também a qualquer relação afetiva — eles abandonam suas famílias, adotam o celibato e passam a vida cruzando o país a pé, sem firmar raízes. Após anos obedecendo a todos os preceitos, Prasannamati percebeu que havia falhado em um deles quando Prayogamati — colega que a acompanhou em suas peregrinações e com quem, sem perceber, acabou desenvolvendo uma grande amizade — adoeceu e decidiu fazer o sallekhana, jejum ritual até a morte. "Depois que Prayogamati partiu, não suportei a perda. Chorei, embora não se espere que o façamos. Todas as emoções são consideradas um obstáculo para se chegar à iluminação. Devemos cultivar a indiferença — mas ainda me lembro dela", confessa a monja.

O apelo emocional é também a tônica em As filhas de Yellamma, que narra a história de Rani Bai. Seus pais a consagraram, quando tinha apenas seis anos de idade, para se tornar uma devadasi — nome dado às mulheres que são devotas de uma das deusas do panetão hindu, e que cumprem sua missão oferecendo o corpo em troca de dinheiro. "Pouco depois da minha primeira menstruação, meu pai me vendeu a um pastor de uma aldeia próxima por quinhentas rúpias, um sári de seda e um saco de painço", conta, acrescentando que mais tarde acabou aceitando seu destino; hoje, ela não se considera uma "prostituta comum", e se sente protegida por Yellamma. O capítulo termina com uma revelação surpreendente.

Nove Vidas não se resume a um punhado de perfis de personagens raros. Além de apresentar as narrativas, o autor as contextualiza por meio de um breve histórico das religiões ou tradições que cada uma delas ilustra. E, embora o faça de modo sutil, também confirma sua obra como verdadeiro relato de viagem. Ao longo dos capítulos, o leitor é conduzido pelos quatro cantos da Índia, em um roteiro nada turístico. No sudoeste, no fértil estado de Kerala, fica a cidade de Tellicherry, onde Hari Das trabalha durante a semana cavando poços e, nos fins de semana, como carcereiro numa prisão para criminosos de uma facção de extrema direita. Uma vez por ano, no entanto, ele assume sua verdadeira vocação e se torna um theyyam, dançarino que incorpora uma divindade. No nordeste, em meio a uma floresta escura na região de Bengala, fica o terreno de cremação de Tarapith, onde vive Manisha Ma Bhairavi, uma sacerdotisa tantrista que, nas noites sem lua, participa de um ritual que envolve sacrificar animais e beber seu sangue em crânios humanos. A noroeste, além da fronteira com o Paquistão, fica Sehwan Sharif. É o local do templo dedicado a um santo sufi (vertente mística e sincrética do islamismo), e onde geralmente se encontra uma mulher gorda, vestida de vermelho e carregando um bastão de madeira, chamada Lal Peri Mastani, mais conhecida como a Fada Extática Vermelha. No norte, em Dharamsala, junto ao Himalaia, na única parada mais óbvia da viagem, está McLeod Ganj, a sede do governo tibetano no exílio. É lá também que vive Tashi Passang, monge budista que, no início dos anos 1950, abriu mão de seus votos e da pureza de seu karma para pegar em armas contra o exército chinês e, assim, assegurar a fuga do Dalai Lama.

"Ao situar muitas das histórias nos aspectos mais obscuros e menos românticos da moderna vida indiana, com cada personagem contando sua história, e somente com a estrutura criada pelo narrador, espero ter evitado muitos dos clichês acerca da 'Índia mística' que tanto arruínam os textos ocidentais sobre a religião indiana", aponta Dalrymple, na introdução. De fato, o autor consegue fugir da visão mais tradicionalista ao retratar o quanto a própria tradição tem sido abalada pelo processo de crescimento econômico e avanço tecnológico do país. Exemplo disso é o protagonista do capítulo O fabricante de ídolos, Srikanda Stpathy, cujo clã há quase 10 séculos tem se dedicado à produção de estátuas de deidades em bronze. O ofício, transmitido de geração para geração, corre o risco de acabar, uma vez que o filho de Srikanda tem outros interesses. "[Meu pai] não me deu escolha. Não vou fazer o mesmo com meu filho. [...] Certamente vou me assegurar de que ele tenha a habilidade — e ele já é capaz de fazer bons modelos de cera. Mas, se ele tiver boas notas e a chance de estudar engenharia da computação na universidade, seria injusto negar-lhe a oportunidade que deseja", afirma o artesão.

Como o próprio escritor nota, apesar de todas essas transformações, as questões permanecem as mesmas, milenares — o confronto entre pai e filho, velho e novo, sagrado e mundano. "A água segue adiante, um pouco mais veloz do que antes, porém o grande rio ainda corre. Ele é fluído e imprevisível em seus estados de espírito como sempre foi, mas serpenteia entre margens familiares", conclui Dalrymple. São palavras que, em termos de beleza, não deixam nada a desejar aos mais famosos poemas do hinduísmo. Ou da Grécia Antiga.

5 de outubro de 2012

Pela Bandeira Do Paraíso

[Under The Banner Of Heaven]
Autor: Jon Krakauer
384 págs.
Companhia das Letras, 2003


Parecia um sujeito normal. Bem-sucedido profissionalmente e respeitado pela comunidade, era um marido e pai dedicado, apesar da recente crise familiar — anos antes, tivera um filho fora do casamento e passara a abrigá-lo (e à amante) em seu lar; no entanto, depois que seu herdeiro legítimo nasceu, a esposa pediu-lhe que mandasse o bastardo (e a amante) embora, e ele acabou atendendo. Alguns poderiam até reprovar tal atitude, mas ninguém a consideraria indício de insanidade. A única coisa realmente bizarra em seu comportamento era o fato de ele acreditar em um deus com o qual mantinha uma relação bastante pessoal. A divindade não apenas conversava com ele, como também o visitava, dava conselhos e prometia recompensas — faria dele, por exemplo, o líder de seu povo, caso aceitasse realizar algumas tarefas, como matar o próprio filho. Sem pestanejar, ele aceitou.

Profetas são figuras complexas, contraditórias e, por isso mesmo, fascinantes. Eles são capazes de compreender aspectos da espiritualidade que fugiriam à percepção de teólogos e filósofos qualificados, mas ao mesmo tempo apresentam claros sintomas de transtorno mental — afinal, eles ouvem vozes e vêem coisas. São abnegados que dedicam suas vidas a cumprir suas missões e, assim, garantir a salvação dos outros, mas são também narcisistas — eles é que são os eleitos, suas palavras é que são as verdadeiras, é do lado deles que os deuses estão. E, acima de tudo, são homens de fé, no sentido de que nada consegue abalar suas convicções — com todas as consequências positivas e negativas que isso possa trazer. No fim das contas, o que diferencia um profeta iluminado de um lunático é se você acredita nele ou não. A propósito, o sujeito do parágrafo anterior chamava-se Abrão, mais tarde conhecido como Abraão, patriarca bíblico dos israelitas. E aquele deus meio sádico era, portanto, o mesmo que depois se tornaria o Deus do Judaísmo, do Cristianismo e do Islamismo.

Era, também, o mesmo que falava com Ron Lafferty — aqui, a comunicação entre divindade e discípulo se dava por meio das chamadas "revelações", que Ron havia aprendido a receber e interpretar na Escola de Profetas que vinha frequentando, e que consistiam em textos escritos de próprio punho ou no computador, supostamente inspirados pelo Todo-Poderoso. Uma dessas revelações enumerava quatro pessoas que deveriam ser "removidas" para que a "obra do Senhor" pudesse seguir adiante. Ron mostrou-a ao irmão, Dan; juntos, concluíram que eram instruções verdadeiramente divinas e deveriam ser cumpridas. Começariam pelos dois primeiros nomes da lista, Brenda e Erica — respectivamente, a esposa do irmão mais novo deles, Allen, e a filha do casal, de apenas quinze meses de idade. Assim, em uma tarde de julho de 1984, Ron e Dan bateram à porta da cunhada, tão decididos quanto Abrão estava no momento em que ergueu o punhal contra o próprio rebento, Isaac. Só que, ao contrário do que aconteceu com o personagem do Gênesis, nenhum anjo apareceu no último momento para impedir o ritual e dizer que tinha sido apenas um teste de fé. Naquela noite, quando Allen chegou em casa, na cidade de Provo, Utah, encontrou a esposa e a bebê cobertas de sangue, ambas com a garganta cortada.

Como outros crimes dessa natureza, os assassinatos de Brenda e Erica foram obra de indivíduos perturbados com uma visão distorcida de sua crença. Mas o caso acaba se destacando por envolver uma religião que figura entre as que mais têm crescido nos Estados Unidos nos últimos tempos, segundo pesquisa publicada no início deste ano, e que tem entre seus membros ilustres o atual candidato republicano à Casa Branca, Mitt Romney — e que, mesmo assim, continua sendo um mistério para a maioria das pessoas, provavelmente familiarizadas apenas com o lado mais extravagante de sua doutrina, como o uso das "roupas de baixo sagradas" e a controversa prática da poligamia. Trata-se da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, também conhecida como Igreja LDS (sigla de seu nome em inglês, Latter-Day Saints) ou Mórmon.

Autor de livros-reportagem como Na Natureza Selvagem e No Ar Rarefeito, Jon Krakauer cresceu em uma cidade com expressiva comunidade de Santos dos Últimos Dias, tanto que muitos de seus amigos de infância pertenciam à LDS. Fascinado por aquele credo, o jornalista pretendia escrever um livro sobre "como uma mente crítica consegue reconciliar a verdade científica e histórica com a doutrina religiosa", numa abordagem sob a lente do Mormonismo. Tendo acontecido há menos de dois séculos, a criação da Igreja foi, como ele observa, "abundantemente documentada em relatos de primeira mão. Graças aos mórmons, tivemos uma oportunidade única de apreciar — com detalhes surpreendentes — como nasce uma importante religião". Durante a pesquisa, entretanto, sua atenção foi sendo irresistivelmente atraída para o crime dos irmãos Lafferty. O resultado é Pela Bandeira Do Paraíso, que procura dissecar o caso por meio de entrevistas com vários envolvidos, inclusive um dos assassinos, Dan, que cumpre prisão perpétua (seu irmão Ron, condenado à pena capital, aguarda até hoje o resultado de suas apelações no corredor da morte), além de depoimentos extraídos de transcrições das audiências e julgamentos.

A religião é, obviamente, um dos pontos centrais no relato. Ron e Dan eram mórmons dissidentes, embora não afiliados à FLDS (Fundamentalist Latter-Day Saints), principal ramo fundamentalista da Igreja. Para tentar entender o credo particular dos Lafferty e as diferenças entre LDS e FLDS, Krakauer recorre a eventos e personagens-chave na história do Mormonismo — a começar por Joseph Smith Jr., que fundou o movimento na década de 1820. Smith vivenciou um período de histeria apocalíptica (sob o impacto da recessão econômica na qual os Estados Unidos haviam mergulhado após a Guerra da Independência), em que muitos católicos e protestantes se sentiam insatisfeitos com a postura distante de suas igrejas, e buscavam conforto tanto em uma relação mais pessoal com seu Deus quanto em crenças voltadas ao misticismo. Influenciado pelo espírito da época, o futuro profeta, em sua adolescência, começou a oferecer um serviço de localização de objetos valiosos perdidos, que ele dizia ser capaz de achar utilizando uma "pedra mágica". A carreira foi interrompida quando ele foi acusado de charlatanismo, mas ainda havia mais um tesouro a ser encontrado.

Poucos anos mais tarde, Smith foi visitado por um anjo chamado Moroni, que revelou a existência de placas de ouro enterradas numa colina. Nelas, inscrita em caracteres egípcios, estava a história de uma tribo hebraica liderada por Lehi, que, cerca de 600 anos antes do nascimento de Jesus, saiu de Jerusalém e veio colonizar a América. Quando ficou velho, Lehi decidiu passar o comando para seu filho Nephi, o que enfureceu o outro filho, Laman. A tribo, então, ficou dividida em dois clãs: os virtuosos nefitas e os corrompidos lamanitas, que, por sua maldade, foram punidos por Deus e tiveram suas peles escurecidas. Na disputa pelo poder que se sucedeu, os lamanitas dizimaram os nefitas, o que explicaria porque os índios americanos têm a pele escura — seriam todos descendentes dos seguidores de Laman. Traduzida por Smith, essa narrativa foi batizada de Livro De Mórmon (Mórmon foi o líder dos nefitas na batalha final contra os lamanitas) e se tornou, juntamente com outro livro do profeta, chamado Doutrinas E Mandamentos, a base da Igreja dos Santos dos Últimos Dias.

Carismático, Smith logo conquistou adeptos, atraídos não somente por aquela história, mas também pelo fato de a nova religião ser legitimamente americana e incentivar uma comunicação direta dos fiéis com Deus — segundo o profeta, qualquer um era capaz de receber uma revelação divina. Com o tempo, entretanto, o líder se deu conta de que as suas instruções logo poderiam começar a ser contrariadas pelas revelações de algum seguidor. Smith, então, mudou o discurso, dizendo que Deus havia decretado que, a partir dali, apenas ele, o profeta, estava autorizado a receber os mandamentos divinos. É claro que nem todos aceitaram isso, e foi então que as primeiras seitas separatistas surgiram. Outro momento de ruptura foi quando Smith anunciou a revelação hoje conhecida como "artigo 132" e na qual o Senhor autorizava os homens a tomarem quantas esposas desejassem. A notícia chocou muitas pessoas dentro e fora da comunidade, e a suposta imoralidade daquela doutrina só fez intensificar a perseguição que os Santos já vinham sofrendo. A escalada de violência culminou com o assassinato de Smith, em 1844. Cerca de 40 anos mais tarde, um dos sucessores do profeta no comando da Igreja Mórmon finalmente cedeu às pressões externas e revogou o artigo 132, proibindo a já disseminada prática da poligamia.

Fundamentalistas, qualquer que seja o credo, lutam pela volta de suas religiões ao que eles acreditam ser seu estado mais puro. Os membros da FLDS, por exemplo, têm como principal crítica à LDS o fato de ela ter abandonado o casamento plural, que, afinal, foi ordenando pelo próprio Deus por meio de Joseph Smith Jr. Ron e Dan Lafferty defendiam não só esse como outros mandamentos descartados pelos mórmons da linha central, como a liberdade de qualquer fiel receber revelações divinas. E também um especialmente polêmico, pregado por Smith e por Brigham Young (sucessor imediato do fundador após sua morte e um dos principais responsáveis pela expansão do Mormonismo): a expiação pelo sangue, que dizia que algumas transgressões só podem ser redimidas se "o sangue dos pecadores for derramado no chão", nas palavras de Young.

Para quem não compartilha da fé, o primeiro impulso é qualificar todos — Smith, Young, os Lafferty e os Santos em geral — como lunáticos, já que a história narrada no Livro De Mórmon soa ridiculamente fantasiosa. Nesse sentido, a principal virtude de Pela Bandeira Do Paraíso é não permitir que a visão crítica seja contaminada pelo preconceito. Ao comentar a falta de evidências arqueológicas comprovando a existência de uma civilização como a dos nefitas na América ou de uma ligação genética entre os índios americanos e os hebreus, Krakauer lucidamente observa: "Todas as crenças religiosas derivam da fé não racional. E a fé, por definição, tende a ser imune à argumentação intelectual ou à crítica acadêmica. [...] Os que atacam o Livro De Mórmon devem ter em mente que sua veracidade é tão duvidosa quanto a da Bíblia, ou a do Corão, ou a das escrituras sagradas da maioria das demais religiões. Esses últimos textos simplesmente têm a considerável vantagem de haverem aparecido publicamente nos recessos sombrios do passado remoto, sendo por isso muito mais difíceis de refutar".

Ninguém nega que Ron tenha problemas, mas ele realmente acreditava que a sua revelação era divina, ainda que os quatro nomes na lista de remoção fossem coincidentemente os das mesmas pessoas que ele considerava culpadas por sua esposa tê-lo abandonado. Da mesma forma, Joseph Smith Jr. realmente acreditava que a poligamia era um mandamento de Deus, ainda que estivesse oportunamente em consonância com os seus apetites (o profeta teve mais de 40 esposas). É preciso admitir que distorcer uma crença para que ela se adeque aos seus próprios interesses não é um ato praticado somente na religião dos outros. A Bíblia na qual católicos e protestantes depositam sua fé, por exemplo, é uma compilação de textos selecionados e editados com o firme propósito de transmitir a mensagem que o ramo predominante na Igreja de então acreditava ser a mais adequada — e que, ao longo da história, serviu como justificativa para atrocidades como as Cruzadas e a Inquisição.

Logo nas primeiras linhas do Livro De Mórmon, Smith adverte que, se o texto tiver alguma falha, serão "erros dos homens". E é esse o ponto: os homens erram; só que quando eles acreditam com convicção em algo, eles deixam de se questionar.

6 de março de 2012

Ray Bradbury

ATUALIZAÇÃO: é com tristeza e algum assombro que vejo que este texto foi publicado exatos três meses antes da morte do autor.

[1920-2012]

Ray BradburyUma das minhas professoras de Português do segundo grau tinha uma máxima que ela repetia com voz rouca e solenidade quase cômica: “quem manda na língua é o falante”. Só que o bordão, em vez de funcionar como uma ferramenta pedagógica pra fixar aquela ideia, acabava virando alvo pros engraçadinhos de plantão, que imitavam a pobre mulher e faziam a atenção da sala se dispersar em meio a risos nem sempre contidos.

Mais tarde, descobri que a frase de efeito estava longe de ser invenção da professora. No estudo da língua, é possível observar um grande número de mudanças que acontecem na contramão das normas e da erudição. São muitos os casos em que a pronúncia acaba determinando a grafia de uma palavra, ou em que fatores sócio-culturais interferem na acepção de um termo.

"Alienu", por exemplo, que em latim significa "que é do outro", deu origem, em português, ao seu sinônimo "alheio". E está também na raiz de "alienígena", que quer dizer... "estrangeiro". Sim, porque a noção de que a palavra diz respeito a ETs ou a monstros cabeçudos que saem da barriga das pessoas vem por empréstimo da cultura popular, em especial a norte-americana. Aliás, "alien", em inglês, tem a mesma origem etimológica e significado que em português, podendo, ainda, se referir a espécies animais ou vegetais introduzidas em outro ambiente que não o seu.

Não é difícil imaginar, portanto, a analogia que trouxe a palavra a esse sentido de "extraterrestre" que ela tem hoje. Dos antigos gregos, que cunharam o nome pejorativo "bárbaro" pra se referirem a qualquer povo que não falasse seu idioma, às sempre conflituosas relações entre o Ocidente e o Islã, a humanidade sempre se cagou de medo e reagiu com agressiva desconfiança em relação a tudo que fosse diferente.

Os "estrangeiros" da ficção científica nada mais são do que um reflexo disso. A invasão alienígena de Guerra dos Mundos, de H. G. Wells, por exemplo, espelhou o medo de um novo confronto mundial em 1938 (na famosa adaptação transmitida pelo rádio e narrada por Orson Welles), bem como a paranoia da Guerra Fria em 1953 (na primeira versão cinematográfica) e a ameaça terrorista em 2005 (na segunda versão, dirigida por Steven Spielberg).

As Crônicas MarcianasMuitas vezes, essas alegorias acabam nos passando despercebidas. É preciso que venha algum gênio nos dar um tapa na cara, como quando o físico Stephen Hawking comparou a hipotética vinda de extraterrestres ao nosso planeta com a chegada de Cristóvão Colombo à América (e o subsequente massacre das populações locais pelos conquistadores). Ou, antes disso, em 1950, quando o norte-americano Ray Bradbury publicou As Crônicas Marcianas [304 págs.; Globo, 2009].

As narrativas que compõem o livro foram escritas por Bradbury ao longo da década de 1940. Cada uma delas apresenta uma visão diferente a respeito da presença humana em Marte. Pro autor, são contos de fantasia, uma vez que, segundo ele, correspondem a uma "representação do irreal" e se opõem à ficção científica — esta, uma "representação do real".

Classificações à parte, a obra é mais do que uma mera compilação: é uma espécie de relato cronológico da fictícia colonização do planeta vermelho. Isto porque o escritor acrescentou capítulos breves que funcionam como interlúdios e que amarram um conto ao seguinte. Em conjunto, eles formam um diário que cobre o período que vai de janeiro de 1999 a outubro de 2026.

Embora Bradbury tenha sido bem-sucedido em seu esforço pra organizar essa crônica da conquista de Marte, o que mais impressiona no livro é justamente a diversidade de abordagens, além do modo como o autor brinca com as expectativas. Os clichês da telepatia e do mimetismo extraterrestres, por exemplo, são explorados com sensibilidade e criatividade em Ylla, A Terceira Expedição e O Marciano. A previsível comparação com a conquista do oeste norte-americano não demora a aparecer, mas é desenvolvida primorosamente em ...E a Lua Continua Brilhando.

Outros contos mais parecem exercícios de reflexão, ora filosófica ora mordaz, sobre a sanidade, como em Os Homens da Terra; sobre o tempo, como em Encontro Noturno; ou sobre o racismo, como em Flutuando no Espaço. Cabe até um tributo ao mestre do fantástico, Edgar Allan Poe, em Usher II — referência ao clássico A Queda da Casa de Usher, de Poe. Já a veia poética fica pro final, na belíssima conclusão O Piquenique de um Milhão de Anos.

Fahrenheit 451O escritor parece gostar de provocar questionamentos e de exigir de seu público mais do que uma simples leitura. Portanto, um filme baseado em As Crônicas Marcianas feito em Hollywood, que tem o péssimo hábito de eliminar qualquer caráter mais cerebral de uma obra em prol da ação, seria algo com que se preocupar. Pois há motivo pra apreensão: uma adaptação cinematográfica realmente está em andamento — e o pior, encabeçada, ironicamente, pelo produtor de Alien Vs. Predador. Resta rezar pra que essa versão pras telonas seja no mínimo tão decente quanto a que o francês François Truffaut fez em 1966 pra outro clássico de Bradbury: Fahrenheit 451 [256 págs.; Globo, 2005].

Na trama desse romance magistral (esse sim uma ficção científica, segundo o autor), somos apresentados a um mundo em que os livros são proibidos. Qualquer obra literária encontrada é logo queimada pelos bombeiros — o título, aliás, se refere à temperatura sob a qual o papel se incendeia. O protagonista, Guy Montag, é um desses homens do fogo; ele vive em crise com a esposa Mildred, cada vez mais mergulhada na ilusão alienante da tevê. As conversas que Montag tem com sua vizinha, a menina Clarisse, o levam a se render à irresistível atração que sente pelos objetos que deveria destruir.

A distopia criada por Bradbury assombra pelos paralelos que é possível traçar com certos aspectos da vida real. O cenário pintado no livro, por exemplo, não é resultado das imposições de um ditador tresloucado: ele é fruto da vontade da própria sociedade, que começa relegando a leitura ao segundo plano pra depois abandoná-la e recriminá-la de vez.

A edição de bolso da Globo de Fahrenheit 451 inclui um posfácio no qual o autor conta dois fatos interessantes. O primeiro é que ele costuma receber cartas de leitores incomodados, que pedem que ele reescreva As Crônicas Marcianas introduzindo mais personagens femininos ou reavaliando o modo como os negros são retratados, e coisas do tipo. O segundo é que uma editora cortou de um de seus contos expressões como “Deus-Luz” e “diante da sua Presença”, provavelmente por medo da reação da comunidade religiosa.

Bradbury então dispara: “Existe mais de uma maneira de queimar um livro. E o mundo está cheio de pessoas carregando fósforos acesos. Cada minoria [...] acha que tem a vontade, o direito e o dever de esparramar o querosene e acender o pavio. Cada editor estúpido que se considera fonte de toda literatura insossa [...] lustra sua guilhotina e mira a nuca de qualquer autor que ouse falar mais alto que um sussurro ou escrever mais que uma rima de jardim de infância”.

A mensagem parece clara: em tempos de exagero do politicamente correto, de celebração da estupidez nos meios de comunicação, de imediatismo raso e banal dos 140 caracteres e das mídias sociais, todos nós somos os bombeiros que acabam com a arte e com a literatura. Somos as Mildreds hipnotizadas e apáticas em frente à tela o dia inteiro. Somos os astronautas que descartam culturas inteiras só porque são estranhas. Mas nós preferimos agir feito alienígenas, perplexos diante de uma realidade que não entendemos. Porque é mais fácil fingir que não entendemos. É mais fácil rir da piada do colega de classe e ignorar a lição.