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28 de fevereiro de 2013

Lisa Hannigan

Quer casar comigo, Lisa Hannigan?

Peraí, antes de responder que a gente nem se conhece e tal, você precisa saber que este é um caso de amor à primeira vista. Quero dizer, primeira audição.

Durava só uns vinte e poucos segundos a sua participação em The Blower's Daughter — que eu ouvi na trilha sonora do filme Closer [dir.: Mike Nichols, 2004] —, mas pra mim foi mais do que suficiente. Os seus vocais etéreos, sublinhados pela modulação da harmonia, soavam mágicos, uma espécie de miragem em meio à desolação deprê cantada pelo Damien Rice. E tenho que confessar que, quando assisti ao videoclipe, custei a acreditar que a mulher linda de cabelos esvoaçantes na praia fosse mesmo a dona daquela voz de cortar o coração.

Quando pus as mãos em O [2003], o disco do Damien, fiquei felicíssimo ao descobrir que você cantava em mais faixas, não somente fazendo backing vocals, como em Older Chests e Cheers Darling, mas solando em trechos de I Remember, Cold Water e a minha preferida, Volcano. Na época, eu achava que você não compunha, e que no máximo escrevia alguns versos — impressão causada pela aparição do seu nome nos créditos como autora apenas da letra de Silent Night, versão que transformava a celebração natalina em briga de casal. O segundo álbum do seu parceiro, 9 [2006], já abria com você mandando ver sozinha os primeiros versos da arrepiante 9 Crimes — "me deixe pra fora junto com o lixo"... Será que era um prenúncio do que estava por vir? Porque, embora você participasse de praticamente todas as músicas do novo disco, indicando sua crescente importância no trabalho do Damien, ele não hesitou em te chutar da banda em 2007, minutos antes de uma apresentação em Munique, na Alemanha.

Deve ter sido um momento muito difícil pra você, que cresceu num minúsculo vilarejo no interior da Irlanda e mais tarde voltou pra sua cidade natal, Dublin, com a desculpa de estudar História da Arte — e com a ambição secreta de se tornar cantora. Auspiciosamente, foi em um show que você conheceu o Damien, ex-aluno da faculdade que você frequentava. Logo, os dois estavam andando juntos, fazendo música juntos e dormindo juntos, humpf. Imagino a sensação de sonho realizado quando The Blower's Daughter estourou mundo afora. Mas você já devia ter adivinhado que, com o temperamento controlador e explosivo que o sr. Rice parece ter, as coisas não poderiam acabar bem. É claro que eu passei a considerar o sujeito um idiota — por que diabos alguém em sã consciência iria querer te demitir e, pior ainda, te largar?! Ainda assim, engrossando a lista de motivos pra te admirar, ao longo dos anos você nunca fez, publicamente, nenhum comentário depreciativo sobre o Damien ou a atitude dele. Quanta classe... Eu, em vez de criticar o cara, devia era agradecer. Afinal, ao te dispensar, ele nada mais fez do que te impulsionar em direção à carreira solo — da qual fiquei sabendo quando ouvi o seu primeiro single Lille, uma graciosa canção sobre (surpresa!) seguir em frente após uma separação. Ela era ilustrada por um vídeo com cenas suas folheando livros pop-up tão incrivelmente elaborados que pareciam de mentira.

Com o seu álbum de estreia, Sea Sew [2008], finalmente pude constatar que baita compositora você é, capaz de escrever músicas bem distantes do tom sombrio típico do seu antigo parceiro, empregando cores tão encantadoras quanto as dos seus vestidos pra criar joias como a cantiga de ninar Splishy Splashy, a envolvente Keep It All, a onírica Courting Blues e a singela Venn Diagram (inclusive, a nerdice desse último título lhe rende pontos extras, mocinha). E o bom gosto? Os arranjos recheados de violões, piano, contrabaixo acústico, cello, bandolim, ukulele, harmonium, trompete e outros sons bonitos só realçam o quão sublime é a sua voz. Mas a faixa que mais me pegou foi I Don't Know — pra mim, a melhor tradução da bobeira que é se apaixonar, em versos como: "Eu não sei se você dirige, ou se ama o chão debaixo de você. Eu não sei se você escreve cartas, ou se entra em pânico no telefone. Eu gostaria de te ligar mesmo assim. Se você quiser, eu topo". Não tenho vergonha de dizer que até hoje deixo escapar um sorriso derretido quando chega a parte do "você não sabe se eu durmo de conchinha, ou se durmo mesmo — ou talvez você saberia, talvez saberia". E durante algum tempo, eu não conseguia parar de escutar essa música, ainda mais quando saiu o vídeo: você e a sua banda redecorando um ambiente sem graça com os recortes de cartolina concebidos pela sua conterrânea, a designer Maeve Clancy (a mesma responsável pelos impressionantes pop-ups do clipe de Lille).

A propósito, o seu esmero com a parte estética é mais uma das virtudes que me encantam. Gosto muito da capa de Sea Sew, um bordado que você mesma fez, bem como a do segundo álbum — o ainda mais cativante Passenger [2011] —, que traz um mapa (também criação sua) mesclando os três lugares nos quais a maioria das novas canções foi escrita: Dublin, Brooklyn, em Nova York, e Baltimore, pequena vila de pescadores na Irlanda. Os videoclipes são, pra variar, excelentes, e combinam perfeitamente com o clima de cada faixa: o frenesi de Knots com o banho de tinta (que você espirituosamente reproduziu durante um show na capital irlandesa), a agitação de What'll I Do com o passeio de montanha-russa (acho uma graça quando você não aguenta e para de dublar), a evocação da faixa-título com as cenas da turnê (ei, quando é que você vai vir tocar por aqui?). Aliás, me agrada muito esse conceito de "jornada" que perpassa todo o repertório do álbum — o constante dilema entre ímpeto e saudade, exemplificado por músicas como A Sail (uma das mais bonitas que você já compôs), o dueto com o norte-americano Ray LaMontagne em O Sleep (inspirada na versão do dr. Ralph Stanley pro hino O Death... Sério, você é cool demais), e Safe Travels (Don't Die), com participação do Glen Hansard (soube que vocês fizeram alguns shows juntos este ano, e quase morri quando te ouvi cantando Falling Slowly com ele).

Viu só? Já te conheço um pouquinho — e adoraria saber do resto. De minha parte, sei que não tenho tanto assim pra te oferecer, a não ser, talvez, a possibilidade de você tirar férias no Brasil; o companheirismo durante as excursões nas quais eu puder ir; o compromisso de, nas demais turnês, quando você voltar pra Irlanda, eu estar lá pra te receber com um pint de Guiness ou uma xícara de chá (primeiro o saquinho e depois a água quente, certo?); a promessa de tentar me dar bem com os seus amigos (com o Glen, pelo menos, é certeza) e não odiar o seu ex (bem, eu adoro os discos do cara...).

E uma certeza: você nunca poderá dizer que eu não te escuto.


20 de fevereiro de 2013

20 de fevereiro de 1977


Praça da República, 1977. Fonte: São Paulo Antiga
Caiu em um domingo... de carnaval. Um baile agitava a madrugada nos arredores da maternidade em que eu nasci. Foi o primeiro ano em que o desfile na capital paulista teve como palco a avenida Tiradentes, em vez da São João, como até então havia acontecido desde a oficialização do evento, em 67. Quando chegou a manhã, a Folha de S. Paulo estampava na capa a foto de um folião fantasiado de Carlitos, soprando sua corneta à frente de um bloco — uma ilustração bastante adequada para a reportagem no primeiro caderno que, em tom saudosista, relembrava carnavais passados, quando havia alegria de verdade pelas ruas tranquilas, antes dos "dias de racionalização e de congestionamentos". O trânsito, por sinal, era feito de Fuscas, Chevetes, Fiats 147 e outros modelos, muitos dos quais anunciados nas páginas da Veja, ao lado de propagandas dos jeans US Top, dos cigarros Shelton e do banco Comind. A última edição da revista, que havia chegado às bancas na quarta-feira, trazia entre seus destaques uma matéria sobre um jovem físico inglês em ascensão, chamado Stephen Hawking. Mais à frente, outro übber nerd era mencionado — Isaac Asimov, cujo romance Fundação [Foundation], primeiro volume da série espacial de mesmo nome, figurava entre os livros de ficção mais vendidos. Também faziam parte da lista Morte Na Praia [Evil Under The Sun], mais uma aventura do detetive Hercule Poirot, criado por Agatha Christie, e A Profecia [The Omen], de David Seltzer. Aliás, a versão cinematográfica da história do anticristo Damien, dirigida por Richard Donner, estrearia nas telonas do país naquela semana, disputando as atenções com Todos Os Homens Do Presidente [All The President's Men], de Alan Pakula, com Robert Redford e Dustin Hoffman.

Eram tempos diferentes. Os quatro Beatles ainda estavam vivos. John Lennon encontrava-se em pleno período de reclusão, iniciado depois do lançamento de Rock N' Roll, álbum de covers do gênero, e do nascimento de seu segundo filho, Sean, ambos em 75. Ringo Starr planejava, para o meio do ano, as gravações de seu próximo disco, Ringo The 4th, o primeiro a não incluir sequer uma composição de seus antigos parceiros — e que acabaria se revelando um fiasco. Paul McCartney, após uma bem-sucedida excursão mundial com o Wings, estava prestes a lançar um single com a versão ao vivo de Maybe I'm Amazed, registrada pela banda durante a porção norte-americana da turnê, no ano anterior. Coincidentemente, George Harrison também havia passado pelos EUA em 76, para gravar uma participação no programa Saturday Night Live, como parte da agenda promocional de seu mais recente álbum 33 & 1/3 — na ocasião, apresentou-se ao lado de Paul Simon, tocando belas versões de Homeward Bound, de Simon & Garfunkel, e Here Comes The Sun, dos Beatles.

Outro velho amigo de Harrison, Eric Clapton entraria em estúdio dali a três meses, e pouco depois lançaria um de seus melhores trabalhos solo: Slowhand, que incluiria no repertório sua interpretação para Cocaine, de J. J. Cale, os hits Wonderful Tonight e Lay Down Sally, e pérolas menos conhecidas, como Next Time You See Her e a instrumental Peaches And Diesel. E uma série de outros discos excepcionais chegaria às lojas, como o petardo Let There Be Rock, do AC/DC, com a faixa-título, Hell Ain't A Bad Place To Be e Whole Lotta Rosie; o clássico News Of The World, do Queen, com We Will Rock You, We Are The Champions, Spread Your Wings e duas das minhas músicas favoritas da banda, Who Needs You e It's Late; o jazzy-noir Foreign Affairs, de Tom Waits, com A Sight For Sore Eyes, Barber Shop e Burma Shave; e American Stars N' Bars, mais um acerto na até então impecável discografia de Neil Young, com Homegrown, Bite The Bullet e a magistral Like A Hurricane, bem como Star Of Bethlehem, com a participação especial de Emmylou Harris. A cantora, inclusive, lançaria seu próprio disco, Luxury Liner, com releituras de Pancho & Lefty, de Townes Van Zandt, e Making Believe, de Jimmy Work, além de She e da faixa-título, ambas de Gram Parsons.

Estreias de peso também estavam para acontecer. Egresso da cena londrina do pub rock, Elvis Costello chegaria — ainda sem sua futura banda de apoio, The Attractions — com My Aim Is True, produzido por Nick Lowe e repleto de canções irresistíveis, como (The Angels Wanna Wear My) Red Shoes, Welcome To The Working Week e a balada Alison. Também associado a uma cena (a do clube CBGB, em Nova York), o Television lançaria o influente Marquee Moon, com repertório praticamente todo assinado pelo guitarrista e vocalista Tom Verlaine. Por sua vez, The Jam, liderado por Paul Weller, lançaria não somente o debut In The City como também, seis meses depois, o segundo trabalho, This Is The Modern World. Já bem conhecido por suas insandecidas performances à frente do The Stooges, Iggy Pop faria sua estreia solo de modo semelhante, com dois discos separados por um intervalo de poucos meses: os igualmente poderosos The Idiot e Lust For Life. Tamanha inspiração seria resultado da chamada "fase Berlim", com ele e o amigo David Bowie em retiro na capital alemã, tentando se livrar da dependência química e compondo como loucos. Bowie também tiraria proveito da parceria, lançando, assim como Iggy, dois clássicos: Low, nas prateleiras desde o mês anterior, e "Heroes".

Seria um ano produtivo também para um quarteto nova-iorquino destinado a mudar a história do rock. Após o excelente Leave Home, disponível nas lojas desde janeiro, os Ramones disparariam em novembro o sensacional Rocket To Russia, um dos LPs de maior impacto na minha adolescência — Cretin Hop, Rockaway Beach, Sheena Is A Punk Rocker, Teenage Lobotomy, Do You Wanna Dance?, Surfin' Bird e outras, todas no mesmo álbum?! Conterrâneos dos Ramones e companheiros de cena no CBGB, os Dead Boys apresentariam seu debut, Young Loud And Snotty. Ou seja, o punk rock estava nascendo. Na Inglaterra, duas facetas distintas do gênero ganhariam seus primeiros registros: a veia politizada do The Clash, com seu autointitulado disco de estreia (que, aliás, estava sendo gravado naquele momento), e a anarquia dos Sex Pistols, com seu único LP, Never Mind The Bollocks. E mesmo não sendo exatamente punk, o Motörhead contribuiria para aumentar o barulho com seu primeiro álbum, homônimo.

Ao mesmo tempo, o fim de uma época se aproximava, simbolizado pela morte de Elvis Presley, em agosto — gordo, paranóico, viciado em remédios e solitário em sua mansão. Outras grandes perdas para o rock seriam as de Marc Bolan, do T. Rex, morto em um acidente de carro, e as do vocalista Ronnie Van Zant e do guitarrista Steve Gaines (bem como de sua irmã Cassie, backing vocal), do Lynyrd Skynyrd, vítimas fatais na queda do avião da banda.

Hoje, dois Beatles e três Ramones estão mortos. Não é uma Quarta-Feira de Cinzas, mas nem por isso o dia deixa de ter certo gosto de ressaca. Claro, é inevitável sentir-se nostálgico e melancólico quando se olha para trás — ainda mais no caso de um ano tão agitado quanto 77. Estranho perceber como uma manchete de jornal ou as páginas amareladas de uma revista ganham novas cores, um apelo romântico. Tudo acaba parecendo muito mais importante, significativo. Fica a impressão de que o hoje é só um prazo estendido, que o prato do dia são as sobras do banquete. E que as ambições de ontem vão ficando cada vez mais próximas dos sonhos — improváveis, ilusórios.

Bom, mas se eu consegui transformar um dia ordinário em uma data especial, talvez consiga fazer o mesmo com o amanhã.


22 de dezembro de 2012

I Know What Love Isn't

Artista: Jens Lekman
Service/Secretely Canadian, 2012

É provável que já tenha acontecido com você: um dia, seus amigos decidem que a sua fase de reclusão, motivada por um traumático fim de relacionamento, durou o suficiente e que é hora de você sair da toca e conhecer gente. Ou ao menos ver gente. De algum modo, eles o convencem a ir a uma festa, e a princípio parece até uma boa ideia. Mas logo fica evidente o seu descompasso com a humanidade — você odeia e ao mesmo tempo inveja todas aquelas pessoas descontraídas fazendo a sua miséria parecer inadequada. A sensação é a de estar gripado em pleno verão. A única saída, portanto, é alegar dor de cabeça, voltar para casa e enfrentar o resto da noite sozinho com, digamos, uma garrafa de bourbon e uma pilha de discos de fossa.

"Uma pilha" não é exagero. A seleção de músicas para ouvir no fundo do poço é interminável. Afinal, há desde os álbuns que soam dolorosos por razões pessoais — como, por exemplo, o que marcou as férias de fim de ano em que vocês se conheceram, ou o da cantora de quem vocês viram o show juntos — até aqueles que são fruto de uma crise parecida com a sua, ou seja, foram produzidos por artistas na pior. Dentro desse segundo grupo, alguns acabaram se tornando clássicos, como In The Wee Small Hours [1955], que Frank Sinatra lançou na esteira de seu divórcio da atriz Ava Gardner, e Blood On The Tracks [1975], no qual Bob Dylan escreveu letras deprê sobre perda e separação, refletindo o período de turbulência vivido então em seu casamento, que acabaria pouco tempo depois.

E o "gênero" continua rendendo. Dentre os exemplos mais recentes, há o comovente The First Days Of Spring [2009], da banda indie Noah And The Whale, praticamente uma crônica sobre o fim da parceria romântica e artística entre o vocalista Charlie Fink e a também cantora Laura Marling, narrado sob o ponto de vista dele; e a breve discografia do duo de alt-country The Everybodyfields, que acompanha a trajetória do casal Sam Quinn e Jill Andrews — eles ainda estavam juntos quando gravaram o álbum de estreia, Halfway There: Electricity & The South [2004]; terminaram a relação, mas decidiram continuar com a banda, projetando toda sua desilusão nas letras do segundo disco, Plague Of Dreams [2005]; a estratégia não deu certo, e as constantes brigas entre os dois chegaram a interromper as gravações do seguinte, o maravilhoso Nothing Is Okay [2007], este sim um álbum escancaradamente confessional, amargo e, infelizmente, o último deles como dupla.

Não se trata, necessariamente, de identificação literal. Para se emocionar com a canção, você não precisa ter vivido exatamente a mesma situação, por exemplo, que Charlie Fink descreve em versos como "na noite passada, dormi com uma estranha pela primeira vez desde que você se foi". A questão é empatia — você ouve uma combinação de letra, melodia e arranjo e pensa que aquele sujeito cantando sabe bem o que você está sentindo, e o entende melhor do que os seus amigos. Bons compositores de música de fossa conseguem transformar o absolutamente particular em universal.

O sueco Jens Lekman domina como poucos essa arte. Ele é capaz de usar um acidente doméstico envolvendo uma faca e um abacate (?!) para compôr uma balada apaixonada — a adorável Your Arms Around Me, do álbum Night Falls Over Kortedala [2007] — ou de criar uma pérola pop — Waiting For Kirsten, do EP An Argument With Myself [2011] — narrando uma tentativa de encontrar Kirsten Dunst em Gothenburg, na ocasião em que a atriz esteve na Suécia para filmar o longa Melancholia, de Lars Von Trier. Ao valer-se desses episódios tão específicos, Jens faz mais do que simplesmente soar autobiográfico — as cenas peculiares pintadas por ele são como instantâneos que ilustram um sentimento comum, uma experiência que qualquer um pode ter vivenciado. Por exemplo: mesmo morando em uma cidade em que não há bondes, é fácil se pegar suspirando de solidão e nostalgia ao escutar a linda Tram #7 To Heaven, do disco When I Said I Wanted To Be Your Dog [2004]. E, como se isso não bastasse, vez ou outra ele ainda dispara um verso matador — não dá para deixar de sorrir ao ouvi-lo cantando "sim, eu fui preso, e usei o meu único telefonema pra dedicar uma canção pra você na rádio" em You Are The Light (By Which I Travel Into This And That), de Night Falls Over Kortedala.

Com essa personalidade romântica e meio boba (tá legal, isso foi uma redundância) que ele deixa transparecer nas composições, não é de se espantar que Jens tenha produzido um disco de fossa tão... estranho. E ao mesmo tempo, tão bonito. I Know What Love Isn't é um album "inteirinho sobre corações partidos", nas palavras do autor, produto da "pior separação" que ele já viveu. Ainda assim, há poucos momentos de melancolia explícita, talvez em três ou quatro faixas, no máximo. Entre elas, I Want A Pair Of Cowboy Boots, na qual confessa que "você estava no meu sonho na noite passada, assim como em todas as outras noites nos últimos dois anos"; mais tarde, no refrão, ele conclui que "no meu próximo sonho, quero um par de botas de cowboy, do tipo que caminha pelas mais retas e mais estreitas rotas — qualquer lugar que não seja de volta pra você".

A razão para a aparente escassez de tristeza é explicada pelo próprio Jens em uma entrevista: "a música pode fazê-lo se sentir melhor, desde que você tenha alguma perspectiva sobre as coisas; mas quando eu estava bem no meio do furacão, eu só conseguia encontrar conforto nas atividades físicas. Então, eu comecei a fazer flexões, o que foi algo completamente novo pra mim, e eu amei como isso me deixava exausto e liberava um bocado daquelas doces substâncias químicas no corpo, levando embora boa parte da preocupação e da dor. A música só veio bem depois". A "terapia" é descrita em versos na faixa Every Little Hair Knows Your Name: "eu comecei a malhar quando nós terminamos. Eu consigo fazer cem flexões, provavelmente conseguiria duzentas se estivesse entediado. Eu escrevi algumas canções quando nós terminamos. Mas não veio nada, então eu parei".

O resultado é que I Know What Love Isn't é um disco sem tantas lamúrias, como se fosse um filme ou um romance que tirasse o foco do drama em si e o concentrasse em como o protagonista tenta se livrar do fardo. No caso de Jens, pode ser de muitas maneiras: desde propor casamento à melhor amiga só para obter uma cidadania estrangeira — como ele narra na faixa-título — até retribuir a gentileza da amiga Tracey Thorn, ex-vocalista do Everything But The Girl, que em sua música Oh, The Divorces, do disco solo Love And Its Opposite [2010], havia escrito: "oh, Jens, oh, Jens, suas canções parecem olhar através de lentes diferentes; você ainda é tão jovem, o amor acaba tão facilmente quanto começa". Em Become Someone Else's, Jens responde: "o que Tracey escreveu a meu respeito é verdade — tudo depende das lentes através das quais você olha. Mas tudo o que sei sobre o amor, eu aprendi com você, Tracey".

Quem sabe a parte mais fácil no fim de um relacionamento seja justamente ficar na fossa, bebendo sozinho e se lamentando ao som de canções tristes. Mais difícil é tocar a vida, conciliando os inevitáveis momentos de depressão com as obrigações profissionais e sociais. Mas, eventualmente, um dia você acaba se dando conta de que o mundo, afinal, segue em frente. Pode ser que essa percepção venha de modo inesperado, como Jens descreve em The World Moves On: em meio à mais intensa onda de calor já vivida nos últimos anos na Austrália (onde ele morou durante algum tempo), deitado no chão, com um pacote de ervilhas congeladas na testa, e de repente, a revelação: "você não supera um coração partido, apenas aprende a carregá-lo graciosamente".

Se isso for muito "verão" pra você, talvez seja reconfortante lembrar que na Suécia faz frio o tempo todo.

22 de março de 2012

Apenas Uma Vez

[Once]
Direção e roteiro: John Carney
Irlanda, 2006

Once
Não é dos finais felizes que eu mais me lembro. Tudo bem, eles conseguem gerar satisfação imediata mas, ao mesmo tempo, são conclusivos — acabou, pronto. Os agridoces, por outro lado, ficam reverberando indefinidamente. O nó na garganta continua depois que os créditos passam pela tela, e daí se transforma em ruminação, tópico obsessivo de conversa. Talvez porque os elementos que geralmente compõem esse tipo de desfecho sejam tão familiares: o esforço sem resultados visíveis, o gosto de derrota mesmo quando se ganha, o mocinho que não fica com a mocinha... Finais agridoces geram identificação imediata.

Da primeira vez em que vi Glen Hansard e Markéta Irglová, simpatizei de cara — ela, tímida ao piano; ele, com seu violão esburacado. Os patinhos feios no meio da pompa da cerimônia do Oscar em 2008. Mas foi com a música que eles me conquistaram de vez. Ou melhor, meia música: bastou chegarem aos versos iniciais do refrão de Falling Slowly ("take this sinking boat and point it home / we've still got time") pra eu já ter meu candidato ao prêmio de Melhor Canção. Valeu a torcida — Glen e Markéta faturaram a estatueta com o tema principal de Once, que no Brasil acabou recebendo o título de Apenas Uma Vez.

Nem esperei o fim da cerimônia pra ir atrás do filme. E, mais uma vez, foi uma questão de segundos: logo na abertura, lá estava Glen com seu violão esburacado, numa calçada, cantando minha música favorita do Van Morrison, And The Healing Has Begun. Ele interpreta o Cara, que, quando não está consertando aspiradores de pó na oficina do pai, ganha uns trocados a mais como músico de rua. Durante o dia, toca covers, mas depois que o sol se põe e não tem ninguém prestando atenção, arrisca suas próprias composições. Numa dessas noites, conhece a Garota, interpretada por Markéta, que também trabalha na rua (vendendo ora revistas, ora flores) e pergunta pra quem ele escreveu aqueles versos (da canção Say It To Me Now) cheios de mágoa.

Dublin, onde os dois vivem, representa o ínterem no qual parecem estar presos: ele, tentando esquecer alguém que foi pra Londres; ela, à espera de alguém que ficou na República Tcheca. É justamente nesse "limbo" das ruas da capital irlandesa e das suas vidas que eles acabam se aproximando. Afinal, vagar por aí talvez seja a segunda melhor maneira de se conhecer melhor uma pessoa. A primeira, é claro, é a música. A Garota os conduz à loja de instrumentos onde o dono a deixa ficar praticando num dos pianos. Lá, o Cara a ensina a tocar Falling Slowly, e é evidente o sentimento que é simbolizado por aquele instante mágico em que eles se dão conta do quanto a canção fica melhor em dueto. Quando estão juntos, a cidade parece ampliar suas fronteiras — no passeio de moto, as ruas estreitas dão lugar a estradas, florestas, o mar. Quando estão juntos, conseguem convencer os outros (a banda, o gerente do banco, o técnico do estúdio) a gravar um punhado de canções.

FitzcarraldoA trilha sonora e a química entre os protagonistas, aliás, são os dois principais elementos que fazem o filme funcionar. O irlandês Glen, que já havia participado de outro musical no cinema antes, como o guitarrista do grupo soul em The Commitments [Alan Parker, 1991], é daqueles vocalistas que cantam com tudo: garganta, peito e vísceras. À frente do The Frames — banda formada em 1990 e da qual John Carney, o roteirista e diretor de Once, foi o primeiro baixista —, ele já alternava momentos explosivos, como em Revelate [do álbum Fitzcarraldo, de 96], com outros de introspecção, como em Lay Me Down, [For The Birds, 2001], às vezes ambos na mesma canção, como na versão ao vivo de Your Face [Set List, 2004].

Strict JoyFoi só quando montou outro projeto, The Swell Season, e deu início à parceria com Markéta que Glen realmente encontrou sua contraparte. Numa primeira impressão, a cantora e multi-instrumentista tcheca parece ter contribuído apenas com um pouco mais de doçura. Mas ela trouxe mais do que isso: a suavidade dos vocais e do piano de Markéta imprime uma tensão contida, num contraste que enriquece a voz áspera de Glen, como em This Low e The Moon, ambas do autointitulado disco de estreia do The Swell Season [2006], ou como em Lies e When Your Mind's Made Up, da trilha sonora de Once.

Até então, parecia uma fábula: o filme foi rodado em esquema totalmente independente, custou apenas US$ 30 mil, rendeu quase US$ 2 milhões e ainda por cima faturou um Oscar. A história ganhou mesmo ares de conto de fada quando, durante a turnê de promoção da película, Glen e Markéta iniciaram um romance na vida real. Só que, dessa vez, a torcida não adiantou — a relação não foi pra frente e os dois se separaram em 2009, pouco antes de lançarem Strict Joy, segundo álbum do The Swell Season. No ano seguinte, ainda vieram ao Brasil pra divulgar o trabalho, e tocaram no HSBC Brasil.

The Swell Season
O show foi cheio de momentos de arrepiar: quando Glen subiu sozinho ao palco e começou com uma performance realmente acústica (sem amplificação) de Say It To Me Now; quando a banca tocou as melhores faixas do disco novo: Low Rising, Feeling The Pull e I Have Loved You Wrong; quando eles mandaram duas do Van Morrison: Into The Mystic e Astral Weeks; e, claro, a cada canção da trilha de Once que apresentaram. A parte mais comovente, no entanto, foi mesmo Falling Slowly, que me fez voltar aquele nó na garganta.

De lá pra cá, Markéta estreou como solista com o álbum Anar [2011]. Glen está gravando o seu disco solo. E o The Swell Sweason acabou de lançar um autointitulado documentário que cobre os dois anos da tour promocional de Once, revela o cenário que levou o casal a se separar e soa como encerramento de um ciclo. Mas, quem sabe seja só uma pausa. Quem sabe a banda volte, renovada, e grave outros discos ainda mais inspirados. Quem sabe eles voltem...

Ei, eu nunca disse que não torço pelo final feliz.


27 de fevereiro de 2012

For The Good Times

Artista: The Little Willies
Milking Bull/Parlophone, 2012


For The Good Times
Norah Jones livrou-se das sandálias baixinhas que usava e sentou-se meio de lado, com as pernas dobradas sobre a poltrona. Os pés descalços sugeriam que ela se sentia tão à vontade quanto se estivesse na sala da sua casa. Mas, antes de começar a minicoletiva de imprensa, ergueu rápida e nervosamente os cantos dos lábios, num daqueles pseudossorrisos que as pessoas tímidas geralmente usam pra tentar disfarçar o desconforto — de fato, a cantora acabou confessando que dar entrevistas ainda era um sacrifício. Mesmo assim, respondeu às primeiras questões com desenvoltura de artista tarimbada.

Perguntei, então, sobre o dueto com Dolly Parton e a inesperada sonoridade country em muitas das faixas do novo álbum, Feels Like Home [2004]. Dessa vez, Norah sorriu de verdade antes de explicar que ela e os companheiros de banda estavam ouvindo bastante um disco de bluegrass gravado por Dolly, e que por isso pensaram em convidar a diva da voz aguda pra participar de Creepin' In, canção com levada no estilo composta pelo baixista Lee Alexander. Quanto à sonoridade, era um processo natural: a cantora disse ter sido influenciada pela música country tanto quanto pelo jazz, e destacou Willie Nelson e Hank Williams, além da própria Dolly Parton, como alguns dos artistas que ela cresceu ouvindo.

Sempre tive má vontade com o country, talvez por só conhecer sua versão pasteurizada — Garth Brooks, Shania Twain e afins — ou talvez por associá-lo à música medíocre feita pelos sertanejos. Apesar do entusiasmo naquela entrevista, Norah Jones não conseguiu me convencer a dar uma chance ao gênero. Só fui mudar de opinião anos depois, com o lançamento do autointitulado álbum de estreia [2006] do The Little Willies, projeto paralelo formado por Norah, Lee Alexander, o guitarrista Jim Campilongo, o baterista Dan Rieser e o guitarrista e vocalista Richard Julian, com a proposta de recriar standards country — e se divertir fazendo isso.

Difícil não se apaixonar de primeira por pérolas como Roly Poly [Fred Rose], Best Of All Possible Worlds [Kris Kristofferson] e I Gotta Get Drunk [Willie Nelson], bem como pelas composições próprias, como a balada Roll On [Lee Alexander], que bem poderia ter saído do repertório solo de Norah, ou a divertida Lou Reed [Lee Alexander/Richard Julian/Norah Jones], um conto felliniano — ou melhor, jarmuschiano — sobre o encontro com um sujeito vestido de preto no meio de um pasto no Texas. Além de terem aberto minha cabeça pro country, os Willies fizeram com que eu passasse a me interessar pela obra de caras geniais como Hank Williams e Townes Van Zandt, de quem a banda regravou I'll Never Get Out Of This World Alive e No Place To Fall, respectivamente. E graças à versão de Streets Of Baltimore [Tompall Glaser/Harlan Howard], conheci o Gram Parsons — mas essa é outra história.

Fiquei na expectativa por um novo trabalho da banda, que parecia fadada a não voltar a se reunir: Norah terminou o relacionamento de longa data com Lee, se aventurou em outro projeto paralelo — o trio roqueiro El Madmo — e lançou The Fall [2009], recheado de sonoridades mais modernas, possivelmente indicando os novos interesses da cantora. Mas o apego às raízes falou mais alto. O guitarrista Jim ficou no pé dos companheiros, coordenou as brechas nas agendas de todos e conseguiu marcar os shows que funcionaram como aquecimento pras gravações do segundo disco do quinteto, For The Good Times.

Nem parece que seis anos separam os dois álbuns — continuam lá o mesmo clima informal de jam entre amigos, os duetos precisos de Norah e Richard e o timbre incrível que Jim arranca de sua Telecaster. Fora a ausência de repertório autoral — a única composição própria é Tommy Rockwood [Jim Campilongo] —, a principal diferença nesse novo disco talvez esteja mesmo no ouvinte. Já iniciado no country, pude perceber melhor a abordagem dos Willies em cada música — se, por um lado, foram relativamente fiéis em Wide Open Road [Johnny Cash] e na faixa-título [Kris Kristofferson], por outro, os arranjos esparsos tornaram Lovesick Blues [Hank Williams] mais lânguida e Jolene [Dolly Parton], mais sombria.

Mesmo dentre as canções que não conhecia, consegui encontrar ao menos algo familiar, como, por exemplo, os nomes dos autores de Fist City [Loretta Lynn] e I Worship You [Dr. Ralph Stanley] — a primeira teve o excelente álbum Van Lear Rose [2004] produzido por Jack White, enquanto o segundo participou da trilha sonora de E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? [2000], dos irmãos Coen. O melhor, no entanto, foi mais uma vez ser apresentado a grandes expoentes do gênero, como Lefty Frizzell, o duo Lulu Belle & Scotty e Red Simpson, que comparecem no repertório, respectivamente, com o honky tonk If You've Got Money I've Got The Time [Lefty Frizzell/Jim Beck], a delicada Remember Me [Scotty Wiseman] e a tarantinesca Diesel Smoke, Dangerous Curves [Cal Martin].

Norah já declarou repetidas vezes que, pra ela, a música country é reconfortante por lembrá-la da infância e juventude que passou no Texas. Não à toa, a cantora está na capa de For The Good Times no colo dos companheiros — de pés descalços, como se estivesse em casa.